Recortes do Rio: pintando uma onça para uma causa
Nem toda ideia nasce dentro do ateliê. Algumas começam com uma inscrição enviada sem grandes expectativas e um desejo silencioso de fazer parte de algo maior.
Foi assim que começou minha participação no Jaguar Parade Rio de Janeiro.
A seleção
Quando vi o edital, me inscrevi sem saber exatamente o que esperar. Me inscrevi pensando, "vai que…" mas sem acreditar de verdade que poderia ser escolhida.
Mais de 500 artistas participaram do processo seletivo, e 40 foram escolhidos para transformar uma escultura de onça-pintada em uma obra autoral.
Receber a notícia de que eu havia sido selecionada foi uma surpresa daquelas que ficam guardadas na memória.
O projeto reunia três coisas que considero muito poderosas: arte, espaço público e uma causa ambiental. Não era apenas sobre pintar uma escultura. Era sobre contribuir, através da arte, para a proteção de uma espécie tão importante para a biodiversidade brasileira e que tem tanta importância pra mim. Acho que todo mundo que me acompanha um pouco sabe do meu amor pela onça pintada e o quanto ela está sempre presente em minhas criações.
De onde veio Recortes do Rio
Quando comecei a pensar no conceito da obra, fui buscar inspiração em um lugar que marcou profundamente a minha trajetória: os 14 anos que vivi no Rio de Janeiro. O Rio sempre me chamou atenção por suas camadas. É uma cidade feita de contrastes, encontros, histórias e realidades muito diferentes coexistindo no mesmo espaço. Uma cidade impossível de ser resumida em uma única imagem.
Quis representar essa diversidade através da cor.
A ideia foi criar uma composição formada por vários recortes que se conectam, como uma espécie de mosaico ou colcha de retalhos visual. Cada forma, cada cor e cada fragmento simbolizava uma pequena parte dessa cidade múltipla e vibrante.
Foi desse conceito que nasceu o nome da obra: Recortes do Rio.
O processo
Pintar uma escultura é uma experiência muito diferente de trabalhar sobre uma tela ou papel.
Fiz alguns testes em casa, testando as cores, os pincéis que usaria, já que queria que a pintura tivesse as texturas que já fazem parte do meu estilo.
Me preparei como pude, e estava com a ansiedade mil para começar a pintar. Sempre com a impostora gritando nos meus ouvidos que eu não ia conseguir. Mas vencendo isso tudo eu fui!
Quando cheguei no Village Mall levei um susto, a onça era muito maior pessoalmente do que eu imaginava.
Comecei fazendo os riscos de cada recorte e depois fui colorindo os blocos. No primeiro dia terminei algumas cores.
No segundo e terceiro dia terminei as cores e as costuras e já comecei os detalhes e as pintas.
Pintar as pintas foi minha parte preferida, pois acho que é quando a onça realmente ganhou vida. Usei um pincel bem velhinho para fazê-las, para que ficassem bem texturizadas — e o resultado foi incrível.
No rosto fiz a minha assinatura, que são os olhos assimétricos, um aberto e outro fechado, deixando ainda mais a minha marca.
No final fiquei muito orgulhosa da obra que consegui criar. Tinha significado, era uma onça, mas era a MINHA ONÇA, tinha a minha cara, a cara do meu trabalho.
Foi um processo de experimentação, adaptação e descoberta incrível que jamais vou esquecer.
Principalmente da lição de que quando a gente se propõe a fazer algo, quando jogamos essa intenção no mundo, algo incrível pode voltar pra você.
Arte com propósito
Depois de pronta, a onça ficou exposta na Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, e também foi muito legal vê-la no meio do público, vendo a arte se tornar tão acessível.
Depois ela foi leiloada, e os recursos arrecadados foram destinados a projetos de proteção da onça-pintada.
Existe algo muito bonito quando a arte ultrapassa a contemplação e passa a gerar impacto concreto.
Participar do Jaguar Parade foi uma dessas experiências que permanecem. Não apenas pela oportunidade de expor meu trabalho, mas pela possibilidade de contribuir para uma causa importante através daquilo que faço.