Flores-ser: quando uma ideia cria raízes

Elisa Moura · Diário de uma Ideia · 5 min de leitura

Algumas ideias chegam prontas. Outras precisam de tempo para germinar.

O projeto Flores-ser nasceu de forma natural. Parece que ele estava dentro de mim por anos, ali amadurecendo.

Sempre me interessei pela passagem do tempo, suas consequências e as mudanças que ocorrem em nós.

Quando fui morar mais perto da natureza, comecei a observar como ela nos ensina sobre o tempo das coisas. Como há o tempo de plantar, esperar, colher, florir. Aos poucos, fui percebendo que as flores começaram a aparecer repetidamente nos meus desenhos e pinturas. Não apenas como elementos decorativos, mas como símbolos de crescimento, mudança e esperança.

Foi a partir dessa observação que surgiu a primeira semente do projeto.

Antes de pensar em uma exposição, comecei reunindo referências. Fotografava jardins, colecionava imagens de flores, observava formas, cores e texturas. Mas também pesquisava símbolos ligados ao feminino, à natureza e aos processos de transformação. Mantinha um caderno onde registrava frases, ideias, esboços e pequenas reflexões.

Com o tempo, algumas imagens passaram a se repetir: mulheres, flores e onças.

Flores-ser — pesquisa visual sobre crescimento e transformação

A presença da onça surgiu quase de forma intuitiva. Enquanto as flores representavam crescimento, sensibilidade e renovação, a onça trazia força, instinto e coragem. Juntas, essas imagens começaram a construir uma narrativa sobre a experiência de florescer sem perder a própria potência.

O processo de criação das obras aconteceu de maneira gradual. Muitas vezes eu começava por um desenho simples, sem saber exatamente onde ele iria chegar. Experimentava composições, apagava caminhos, mudava cores, recomeçava. Algumas pinturas nasceram rapidamente. Outras permaneceram semanas em pausa até que eu encontrasse a direção certa.

Durante esse percurso, percebi que a exposição não falava apenas sobre flores. Ela falava sobre as transformações da experiência feminina. E crescimento raramente acontece de forma linear.

Existem períodos de expansão e períodos de recolhimento. Existem momentos de beleza visível e momentos em que tudo parece estar acontecendo debaixo da terra, longe dos olhos. Assim como acontece com uma planta, grande parte da transformação acontece antes da floração.

Foi essa percepção que deu origem ao conceito da exposição Flores-ser: entre flores e instinto.

Cada obra passou a representar uma faceta desse processo. Algumas falam sobre delicadeza. Outras sobre força. Algumas sobre pertencimento, outras sobre liberdade. Todas surgem da tentativa de transformar experiências humanas em imagens capazes de despertar identificação e reflexão.

Quando a exposição finalmente ganhou forma, entendi que o processo criativo tinha sido tão importante quanto o resultado final. As obras expostas eram apenas a parte visível de um caminho feito de observação, pesquisa, experimentação, escuta e cura.

Hoje vejo Flores-ser como um lembrete de que criar é também cultivar. Nem sempre sabemos exatamente o que está nascendo. Mas, quando damos atenção ao que nos atravessa, algumas ideias encontram espaço para criar raízes.

E, com o tempo, florescem.

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